Cada estação da vida é uma edição, que
corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o
editor dá de graça aos vermes.
Machado
de Assis
Em muitas situações fui chamado
de covarde por minha mulher. Covarde demais para tomar tal acusação como um
insulto violento à minha honra, não protestei, mas também não admiti jamais essa
“frouxidão da vontade”, como descreve Machado de Assis ao revelar a alma de seu
maior personagem Brás Cubas. Dado a aventuras, a minha autoimagem posava de muito
corajosa ante o enfrentamento de perigos e riscos de morte em peripécias várias
por entre trilhas, montanhas, rios e florestas.
Esta autoimagem foi fulminada por
um poema de um amigo que é mais que irmão, embora há muito separados pela
distância. O verso de Edmilson Santana cravou-se em minha alma como uma claridade
fulgurosa que afastou, mesmo temporariamente, as asas negras da ignorância e
revelou um rasgão na eternidade em que tudo se mostra verdadeiro.
A
"escultura" está "emoldurada"
com a madeira de
um caixão
e exposta na
galeria
da Capelinha
do Hospital São Vicente...
A exposição descrita é um velório,
a escultura em questão é o cadáver da artista plástica Girlene Malta, uma amiga
meiga e querida que tive nos alvores da vida e perdi há muito, parte pelas
circunstâncias da vida e parte pela falta de coragem de tomar uma iniciativa
tão simples quanto um telefonema ou uma carta. Enfim, começa a se desvelar o
anátema da covardia.
Quando voltei a ouvir,
recentemente, algo sobre “Gir”, como a chamavam os mais íntimos, já não foram
notícias tristes, mas uma laceração de agonia porque não veio apenas como a
apresentação de um fato, mas também como a cobrança de uma atitude que exigia
alguma coragem. Vamos clarear as coisas. Há poucos meses recebi uma ligação de
outra pessoa tão querida quanto a nossa amiga comum de quem também me afastara
pelos mesmos motivos condenáveis já confessos no parágrafo anterior. Cristina
Leilane, poetisa das maiores, foi quem me informou do estado terminal de
Girlene num hospital de Vitória da Conquista, na Bahia, aonde vivi nos alvores de
remotos tempos. Foi a primeira fincada que alvoroçou um formigueiro de lembranças:
pensamentos, atos e palavras – todos potencialmente expressões de nossos
pecados – do que vivi e não vivi com Girlene, intensos ou fugazes. Era a dor do
sujeito, considerando a perda de um ente amado apenas do seu próprio ponto de
vista.
Mas aí veio o segundo golpe. Cris
me contou que a moribunda lembrava-se de mim com alguma frequência e saudosa
expressão. Uma citação do filósofo espanhol Jose Ortega y Gasset insinuou-se
como uma vivificante luz de fundo. Ele dizia que só são realmente importantes as
ideias dos náufragos. Ora, se eu era lembrado por aquela amiga, diante do
naufrágio de sua barca física, só podia significar que, de algum modo eu fui
importante para ela, mesmo tendo deixado nosso amizade esvanecer-se na
imensidão do espaço que nos separou. Agora à minha dor inicial acrescentou-se uma
segunda: a de não ter dado a Girlene a mesma importância que ela me deu,
recordando de mim no seu leito de morte.
Por fim, Cristina Leilane, fiel
até o último suspiro da amiga, sugeriu que eu fizesse uma ligação telefônica para
Girlene. Disse-me que ouvir minha voz uma última vez poderia dar alguma sensação
de alívio a alguém que estava sobrecarregada com todos os sofrimentos que
costumam anteceder nossa partida desse mundo. Vejam a simplicidade do ato. E
mesmo com vários números telefônicos e muitos aparelhos à disposição, além do
incentivo de outras pessoas a quem comentei o fato, o que fiz? Ou melhor: não
fiz.
E por que agi assim?
Por covardia de assumir diante dela
que, por covardia, deixei que o tempo nos roubasse para sempre novos momentos
de alegria como os que vivêramos em priscas eras e que agora já seriam impossíveis
diante da fatalidade do câncer. Se não fosse para confessar a “frouxidão da vontade”
e pedir perdão pela fraqueza, o que mais poderia dizer? Fingir que nada estava
acontecendo, que era como se voltássemos aos alvores da vida? Não tive coragem
para nenhuma das alternativas e dessa indecisão fui sacudido, enfim pelos
versos iluminados de Edmilson Santana – como sempre um mestre em despertar
emoções humanas profundas e revigorantes tanto quanto dolorosas às vezes –
recebidos no ambiente sepulcral – sem vida - do email.
Por isso, agora, em homenagem
póstuma à minha “prima”, irmã, amiga e amada Girlene Malta, eu confesso. Fui
vítima da maldita covardia ou da falta de coragem de agir para conservar as amizades
importantes, ainda que contra a avalanche cotidiana dos afazeres e, mais ainda,
para levar no alforje do coração, sempre, um bálsamo que propicie alívio aos
que nos amam e que, como é próprio do gênero humano, não poderão escapar totalmente
à dor.
Foi isso o que não fiz e, como pecador
confesso, arrependo-me batendo no peito três vezes: por minha culpa, minha tão
grande culpa, minha máxima culpa.
Que isso não se repita pela Graça
de Deus.
