sábado, 5 de janeiro de 2013

CONFISSÃO DE COVARDIA OU DA FALTA DE CORAGEM


Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
Machado de Assis

Em muitas situações fui chamado de covarde por minha mulher. Covarde demais para tomar tal acusação como um insulto violento à minha honra, não protestei, mas também não admiti jamais essa “frouxidão da vontade”, como descreve Machado de Assis ao revelar a alma de seu maior personagem Brás Cubas. Dado a aventuras, a minha autoimagem posava de muito corajosa ante o enfrentamento de perigos e riscos de morte em peripécias várias por entre trilhas, montanhas, rios e florestas.

Esta autoimagem foi fulminada por um poema de um amigo que é mais que irmão, embora há muito separados pela distância. O verso de Edmilson Santana cravou-se em minha alma como uma claridade fulgurosa que afastou, mesmo temporariamente, as asas negras da ignorância e revelou um rasgão na eternidade em que tudo se mostra verdadeiro.

A "escultura" está "emoldurada"
com a madeira de um caixão
e exposta na galeria
da Capelinha do Hospital São Vicente...

A exposição descrita é um velório, a escultura em questão é o cadáver da artista plástica Girlene Malta, uma amiga meiga e querida que tive nos alvores da vida e perdi há muito, parte pelas circunstâncias da vida e parte pela falta de coragem de tomar uma iniciativa tão simples quanto um telefonema ou uma carta. Enfim, começa a se desvelar o anátema da covardia.

Quando voltei a ouvir, recentemente, algo sobre “Gir”, como a chamavam os mais íntimos, já não foram notícias tristes, mas uma laceração de agonia porque não veio apenas como a apresentação de um fato, mas também como a cobrança de uma atitude que exigia alguma coragem. Vamos clarear as coisas. Há poucos meses recebi uma ligação de outra pessoa tão querida quanto a nossa amiga comum de quem também me afastara pelos mesmos motivos condenáveis já confessos no parágrafo anterior. Cristina Leilane, poetisa das maiores, foi quem me informou do estado terminal de Girlene num hospital de Vitória da Conquista, na Bahia, aonde vivi nos alvores de remotos tempos. Foi a primeira fincada que alvoroçou um formigueiro de lembranças: pensamentos, atos e palavras – todos potencialmente expressões de nossos pecados – do que vivi e não vivi com Girlene, intensos ou fugazes. Era a dor do sujeito, considerando a perda de um ente amado apenas do seu próprio ponto de vista.

Mas aí veio o segundo golpe. Cris me contou que a moribunda lembrava-se de mim com alguma frequência e saudosa expressão. Uma citação do filósofo espanhol Jose Ortega y Gasset insinuou-se como uma vivificante luz de fundo. Ele dizia que só são realmente importantes as ideias dos náufragos. Ora, se eu era lembrado por aquela amiga, diante do naufrágio de sua barca física, só podia significar que, de algum modo eu fui importante para ela, mesmo tendo deixado nosso amizade esvanecer-se na imensidão do espaço que nos separou. Agora à minha dor inicial acrescentou-se uma segunda: a de não ter dado a Girlene a mesma importância que ela me deu, recordando de mim no seu leito de morte.

Por fim, Cristina Leilane, fiel até o último suspiro da amiga, sugeriu que eu fizesse uma ligação telefônica para Girlene. Disse-me que ouvir minha voz uma última vez poderia dar alguma sensação de alívio a alguém que estava sobrecarregada com todos os sofrimentos que costumam anteceder nossa partida desse mundo. Vejam a simplicidade do ato. E mesmo com vários números telefônicos e muitos aparelhos à disposição, além do incentivo de outras pessoas a quem comentei o fato, o que fiz? Ou melhor: não fiz.

E por que agi assim?

Por covardia de assumir diante dela que, por covardia, deixei que o tempo nos roubasse para sempre novos momentos de alegria como os que vivêramos em priscas eras e que agora já seriam impossíveis diante da fatalidade do câncer. Se não fosse para confessar a “frouxidão da vontade” e pedir perdão pela fraqueza, o que mais poderia dizer? Fingir que nada estava acontecendo, que era como se voltássemos aos alvores da vida? Não tive coragem para nenhuma das alternativas e dessa indecisão fui sacudido, enfim pelos versos iluminados de Edmilson Santana – como sempre um mestre em despertar emoções humanas profundas e revigorantes tanto quanto dolorosas às vezes – recebidos no ambiente sepulcral – sem vida - do email.

Por isso, agora, em homenagem póstuma à minha “prima”, irmã, amiga e amada Girlene Malta, eu confesso. Fui vítima da maldita covardia ou da falta de coragem de agir para conservar as amizades importantes, ainda que contra a avalanche cotidiana dos afazeres e, mais ainda, para levar no alforje do coração, sempre, um bálsamo que propicie alívio aos que nos amam e que, como é próprio do gênero humano, não poderão escapar totalmente à dor.

Foi isso o que não fiz e, como pecador confesso, arrependo-me batendo no peito três vezes: por minha culpa, minha tão grande culpa, minha máxima culpa.

Que isso não se repita pela Graça de Deus.