Houve época em que os homens tinham o sentido da vastidão. Calculavam de cabeça, com precisão de satélite, as léguas e léguas que se estendiam pelos mares, grotas, vales, morros e montanhas do mundo. Fizeram mapas e mapas de glebas e glebas ermas que só se podiam medir com o compasso das pernas girando pela imensidão das trilhas e trilhas que floreiam a terra. Puderam, assim, transpor as aventuras e perigos mortais de suas jornadas de vida para as dimensões ainda mais vastas dos pensamentos. E surgiram ideias fantásticas, que podiam moldar a natureza em paraíso, sob a luz do Éden bíblico e de todos os outros jardins de delícias espalhados pelas culturas mais distantes.
A outros homens, “prometeus modernos” - expressão da escritora gótica Mary Shelley para designar seu Frankenstein -, couberam a construção do paraíso sonhado por aqueles, de remotos tempos, misteriosos e românticos, como uma página de J. R. Tolkien. E esses homens de cá já não podem ver claramente o que viram os de lá, porque, aos de hoje, faltam-lhes caminhadas pela imensidão dos caminhos e caminhos que serpeiam os mapas dos velhos cartógrafos extintos pela onisciência do satélite.
Houve época em que onisciência era atributo unicamente divino. Mas cá, nessa era, já não se precisa calcular mais nada. Tudo está contido nos chips das calculadoras e dos computadores.
Não. Nem tudo.
Não há, na máquina, a emoção do real, o suor do sofrimento, o sangue das quedas e lutas contra feras e pedras, o sorriso ao se avistar e se banhar numa cachoeira após a longa marcha sob o sol ou o gozo do conforto provisório do lar, doce lar. Sem esses componentes não pode haver paraíso. Não se compreende conceitos transcendentes ou arquetípicos, como esse, sem alcançar as graças da emoção. São necessárias as mentes que possuam a capacidade do assombro, como a dos velhos cartógrafos, entre os precipícios e os picos das montanhas.
Os construtores do mundo de hoje medem a vastidão do dia a dia nos metros entre um sofá luxuoso e a poltrona confortável do automóvel na garagem. Calculam os segundos entre os programas formatados do forno de micro-ondas. Construíram um paraíso em que as emoções são sintéticas e não geram fantasia, mas o caos. Todas as nuances de sensações são experimentadas pela córnea vítrea das telas de vídeo. Não há novidades concretas, como um rio caudaloso cortando o caminho ou uma suçuarana emboscada na floresta: situações de vida e morte, que surgiam e partiam e marcavam a existência emocional dos velhos cartógrafos.
Sobreviver, atualmente, é fútil, nada mais que repetir padrões de comportamento, como nas máquinas endeusadas pelos homens de cá. É lógica binária: ganhar dinheiro – gastar dinheiro.
Falta arte, no sentido da capacidade de resolver problemas existenciais vitais com intuição, inspiração e maestria; sem mecanicidade.
E falta, sobretudo, o sentido de vastidão, aquele que permite alguém reconhecer as distâncias abissais entre o mundo real e o mundo ideal no limite último dos pensamentos mais puros. Tais pensamentos só se iluminam na contemplação do crepúsculo ou da aurora em uma praia deserta ou quando se enfrenta, sem abrigo, a tempestade, na escuridão noturna da montanha.
Bem sabiam disso os velhos cartógrafos, que respiravam a poeira das estradas e sonhavam com as estrelas como amantes de luz correndo pelas léguas e léguas, que se estendiam pelos mares, grotas, vales, morros e montanhas do céu.

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