quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

FÓRMULA PARA ACABAR COM A CRISE

Palavras não são números; não têm precisão matemática. Cada termo, conforme vai sendo utilizado pela ordem social no decorrer do tempo, adquire novas camadas de significados a que os novos falantes são obrigados a considerar. O indivíduo educado no uso da linguagem humana deve ser capaz de perceber e distinguir essas várias dimensões das palavras presentes em cada discurso que ouve ou profere. Sem essa capacidade, efetivamente não há comunicação; estando impossibilitada a compreensão plena das sutilezas inumeráveis da linguagem. O que sobra é uma expressão subumana em que o vocábulo – o som característico da palavra – vale pela carga emocional que representa no padrão grupal. Se for algo aceito pelo coletivo é "bom" e desperta aceitação automática; caso contrário, rejeição instantânea. Em ambos os casos, abdica-se do uso da razão como mediadora do comportamento.

Especialmente as palavras que se enquadram no chamado “vocabulário politicamente correto” visam criar um padrão de reconhecimento coletivo, como os sons utilizados entre os lobos de uma mesma alcateia. Definitivamente isso não é linguagem humana e, entretanto, é quase tudo que resta na babel, que inconvenientemente se chama de debate público hoje no Brasil e que acreditam ser a saída para a crise geral que nos assola. Ninguém ali está interessado em compreender o outro, mas exclusivamente em classificar qualquer falante em um dos grupos ideológicos vigentes e identificá-lo como “companheiro” ou inimigo de classe. Por ironia do destino, muitos destes “sábios” debatedores insistem em bradar aos quatro ventos as palavras “diversidade”, “democracia”, “respeito” e outras similares. Creio que parte deles sequer nota a incoerência na utilização desses termos como símbolos verbais de autoidentificação, reforço e isolamento grupal, quando, de fato, tais palavras significam a possibilidade de comunicação e convivência entre os vários grupos possíveis, desde que o uso da língua fosse utilizado racionalmente.

A compreensão adequada de um discurso não é um dom espontâneo da espécie humana. Tal entendimento exige uma base de conhecimento adquirida da experiência social, a partir do que o sujeito pode captar as camadas de sentido por trás dos termos vigentes na fala e apreender como tais conceitos se encaixam na unidade cultural da civilização da qual ele faz parte. Sem essa visão de mundo íntegra e edificante é impossível desenvolver-se certas funções mentais que determinam a inteligência humana. O psicólogo romeno-judeu Reuven Feuerstein classificou esse fenômeno de deficiência cognitiva como Síndrome da Privação Cultural e a colocou como uma das causas da pandemia de transtornos de aprendizagem que afetam a Educação mundial.

Para resolver esses transtornos, ele desenvolveu um instrumento magnífico chamado Programa de Enriquecimento Instrumental-PEI que, por meio de desafios lógicos, conduzidos por um mediador, desperta e conscientiza o mediado para a utilização de 29 funções cognitivas ou mentais necessárias para a captação e compreensão da realidade, sua expressão verbal e reação comportamental apropriada para se melhorar a inteligência. Tendo me formado pelo Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná como mediador do PEI, tenho convicção de que esse programa poderia ser uma das poucas soluções para resolver a debacle cognitiva da educação nacional.

Infelizmente, é quase impossível alterar a grade curricular das escolas, já abarrotada de conteúdos que levam os nossos alunos cada vez mais para o fim do ranking nas avaliações mundiais do ensino público. E a situação tende a se agravar caso seja implementada a nova Base Nacional Comum Curricular/BNCC, que aprofunda a ideologia politicamente correta nas escolas. Parece mesmo que ninguém do governo está interessado em ensinar os alunos a desenvolverem a inteligência; basta que repitam os “chavões ideológicos” do coletivo da moda, como cães bem adestrados. Assim estarão prontos para o debate público nacional, como estão fazendo em São Paulo em relação às mudanças propostas pelo governo para a rede estadual de ensino. Para tal comportamento crítico, conforme a doutrina de Paulo Freire, seria pura perda de tempo potencializar 29 funções cognitivas, quando apenas alguns vocábulos bradados sem sentido, além de tacapes, pedras e bombas, são suficientes para garantir a civilização utópica do admirável mundo novo.

Não é à toa que a BNCC quer diminuir as referências às civilizações clássicas, que criaram as “maravilhas” da cultura ocidental, como a Catedral de Notredame ou o computador, e priorizar as nossas raízes indígenas. Estaremos assim mais aptos a fabricar tacapes, machados e flechas e, quem sabe, até dispostos a experimentar um pouco de canibalismo, como nossos ferozes tupinambás.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

DEU MERDA!

Os homens precisam se alimentar para sobreviver. Nesse processo orgânico, os alimentos precisam ser convertidos, por meio da “alquimia” estomacal, em algo essencial para manter a vida: energia corporal. Contudo, algo tão sublime gera um resíduo operacional desprezível: as fezes.

Sob certos aspectos, a ação humana é análoga a esse processo. Toda atividade humana, por mais que tenha inspiração e aspiração espirituais das mais elevadas e objetivos mundanos bondosos, de algum modo, provocará resíduos de sofrimento e maldade. Para não ser assim, necessariamente a ação humana teria que ser semelhante à ação divina e isso é logicamente impossível pelo fato de que a ação divina contem em si o universo infinito/eterno de todas as possibilidades, enquanto o homem é, por si mesmo, um fragmento da ação de Deus, uma criatura finita, ainda que passível de alcançar a Eternidade em Cristo Jesus.

É por isso que o Cristianismo tem como princípios fundamentais a abstenção do julgamento alheio e o perdão. De qualquer ação humana resultará necessariamente algo condenável, assim como do banquetear-se procederá inevitavelmente a produção fecal. Não é à toa que nos referimos aos nossos maiores erros, conscientes ou involuntários, com a expressão “deu merda”. Sempre dará para cada um de nós, em maior ou menor escala; daí ser, no mínimo, injusto para qualquer um se arvorar a apontar e condenar os erros alheios, quando ninguém está isento do pecado. Nem o Lula.

"Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão”. (Mateus 7, 1-5)

“E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”. (João 8:3-7)

Entretanto, parece-me que o mundo moderno é cada vez mais ávido por julgamentos. E isso está, de um certo modo, relacionado com a teoria materialista da história, que, após colocar como eixo motor da vida humana a necessidade econômica, divide a humanidade entre oprimidos e opressores, de modo que aos primeiros é dado o direito de condenar os segundos sem sequer serem julgados. É como inverter o Evangelho e pregar que Jesus Cristo, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, sentindo-se oprimido por Pôncio Pilatos, o tivesse imolado ou, pelo menos, arrancado-lhe uma orelha como fez Pedro com o soldado no momento da traição e prisão de Jesus no Horto das Oliveiras. Mas, no Verdadeiro Evangelho, Jesus obriga Pedro a guardar a espada, cura a orelha do soldado opressor e morre "sob Pôncio Pilatos", como ensina o Credo Legítimo.

E a justificativa para essa inversão está no modus operandi da mente materialista que não busca encontrar o Bem nas ações humanas, mas apenas o resíduo que gera a opressão e que estará presente em toda a História Humana. Não por coincidência, os mais opressores dos regimes surge exatamente entre os sistemas políticos materialistas que conseguiram algum sucesso.

Em suma, o materialismo é análogo a um sujeito que se alimentasse com o propósito principal de acumular merda.


Não me parece uma opção muito sábia...