terça-feira, 19 de março de 2013

DO QUE NÃO PODE SER DESACONTECIDO...


Em abril de 1991, como editor/redator da estreante revista Raízes da Bahia, de curta duração e menor importância na história do jornalismo de Vitória da Conquista, publiquei uma nota na seção de cultura, página 36, intitulada Complô surrealista. O texto era hiperbólico no estilo prolixo e descrevia vaga e superficialmente a existência de uma artista plástica, Gislene Malta (assim mesmo: Gis... em vez de Gir...) que além de já ter várias obras prontas – a nota era ilustrada por uma tela, sem título, da artista – estava se preparando para realizar um filme em desenho animado, em que seria roteirista, produtora e ilustradora.

As velhas palavras do velho texto nada revelavam do que é a artista e de quem é Girlene Malta, o nome real da minha atual amiga.

Da artista muito se poderia ter dito admirando a obra publicada. No terço inferior da tela há um homem que representa o papel social do sujeito – vestido com roupas sociais, com maleta de trabalho e cabeça em forma de esfera radiante – visto de um ponto de vista superior, de pé sobre um círculo composto por vários outros círculos concêntricos, criando uma sensação de espiral. Este círculo está rodeado por esferas flutuantes, provavelmente simbolizando mundos ou dimensões paralelas. A cabeça do homem toca uma dessas esferas que penetra o interior de um quadrado na região central, que parece ser uma sala ou túnel sem fim. Ali dentro, o homem se reapresenta mas, agora, com uma mão estendida para o alto, tocando os dedos descarnados de uma figura cadavérica, que só pode ser a morte. Essa figura esquelética, no terço superior da tela, se apresenta saindo do quadrado e penetrando no universo das esferas flutuantes.

Tecnicamente, a composição da obra continha algumas características do arquiteto e gravurista holandês Mauritus Cornelis Escher, especialmente o de externar na tela, certas percepções de relativismo direcional, como as famosas escadas que são utilizadas pelos lados de cima e de baixo simultaneamente.

No campo simbólico e psicológico, sem ser entendedor de psicanálise, atrevo-me a arriscar que a tela de Girlene Malta era uma obra genuína no sentido de ser uma representação sincera de um estado de alma. Ali mostrava-se óbvia a experiência de um ser humano que se sentia angustiadamente preso ao seu papel social e às convenções culturais ao ponto de se sentir tão ou mais ameaçado por essa teia de ideias e conceitos do que pela própria natureza física e seus fenômenos. E nesse cenário simbólico – poderia dizer surrealista, mas já não tenho certeza disso – a única saída era por meio da alva figura cadavérica da morte.

Todos nós, em maior ou menor grau, já passamos por experiências análogas e sabemos o quanto são profundas. E a impressão de profundidade é a que mais guardo da minha amada amiga daqueles idos de 91, quando convivemos intensamente e, de minha parte, tanto quanto inconscientemente. Foram momentos de grandes possibilidades, como se vê pelo projeto do desenho animado, que, se bem me lembro nunca chegou a ser realizado, lamentavelmente. Eu próprio tinha, em sonhos, vôos muito mais altos e também jamais conquistados.

Acho que essa é uma sensação vantajosa dada pela velhice: uma maior capacidade de entender as maravilhas do espírito humano, seja em suas grandes realizações ou na simplicidade de uma vida comum que simplesmente brotou e floriu. Só por isso tal vida já é um milagre, o milagre da sobrevivência num canteiro de incertezas, sujeita a todas as pragas e intempéries da existência.

Girlene Malta é um desses milagres e o que mais me alegra é saber que tudo o que aconteceu, aconteceu para sempre, porque não pode mais ser desfeito ou “desacontecido”, como se diz poeticamente. Então em algum cantinho da Eternidade eu continuo convivendo com minha amiga, flutuando numa imensidão de esferas de possibilidades, como aquelas que formavam o fundo de sua tela distante, evanescente, pálida no papel sépia de uma velha revista esquecida.

quarta-feira, 13 de março de 2013

PRIMEIRA PRECE


Meu Deus, tende piedade de mim porque sou fraco e não sei exatamente o que é certo ou errado. Por causa dessa fraqueza, fico com o meu coração dividido entre fazer o que creio ser Tua vontade, apesar da incerteza e da dúvida, e seguir os meus sonhos mais prazerosos, que me levarão para mais longe de Ti. Então, Meu Pai, apresente-se para mim e dê-me forças para não duvidar e inspiração para agir em nome da tua glória e santidade.

Essa foi a primeira prece que compus, saudoso dos tempos em que havia um gênero literário sacro. Não havendo mais tais expressões do espírito humano no campo da cultura, torna-se desnecessário que eu explique a validade espiritual desse subgênero da literatura sacra: a prece. Seria inútil. Para mim, a força que recebi ao escrevê-la mais que me basta. Custou-me apenas uma boa cota de sinceridade comigo mesmo e o resultado foi infinitamente superior ao que teria se fizesse umas mil sessões de psicanálise. Para quem tem grana sobrando, o psicanalista pode ser uma opção, mas não é o meu caso. Permitam-me viver com as minhas preces simplórias, mas sinceras, que, tenho fé, ainda serão ouvidas por Meu Deus.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

VIVER. VIVER COMO?


Essencialmente, as obras primas da literatura mundial expressam as possibilidades humanas e se tornam universais na medida em que qualquer indivíduo possa se reconhecer como possível personagem dos dramas narrados pelos grandes escritores. E entre todos os enredos dramáticos possíveis, os que mais chamam a atenção são aqueles que tratam diretamente do mistério central do ser humano: o sentido da vida diante da morte inevitável. É exatamente nesse sentido que A morte de Ivan Ilitch, do escritor russo Leon Tolstói, publicada em 1886, é considerada por críticos e leitores como uma das obras mais importantes e impressionantes das letras.

É impossível não ter um frêmito de comoção diante do protagonista quando ele, consciente da fatalidade da doença, angustiado pela dor física e moral, pergunta-se: “E se na verdade toda a minha vida tiver sido errada?” A identificação com o personagem – que pode provocar lágrimas – é quase forçoso que leve o leitor a suspeitar, tal como Ilitch, que: “talvez eu não tenha vivido como deveria”.

Essas reflexões revelam-se ainda mais preocupantes e urgentes porque no caso do personagem de Tolstói elas só surgem quando já não é possível fazer nada ante a implacabilidade da morte. De fato, só o que o fez encontrar a paz final foi a admissão de “que sua vida não fora o que deveria ter sido”; e esse é o conflito vital da novela, porque Ivan Ilitch insiste até o ultimo instante – e as últimas páginas da obra – em considerar que a “sua vida havia sido boa”. É uma situação passível de acontecer com qualquer um e, diante do sofrimento humano magistralmente narrado pelo mestre russo, algo a ser evitado certamente.

Tanto mais passível de acontecer porque para os ditames sociais, da época da narrativa e de hoje também, a vida de Ivan Ilitch era um sucesso e “seguia seu curso como ele achava que deveria ser: calmamente, agradavelmente e dentro das normas estabelecidas, levantava às nove horas, tomava seu café, lia os jornais, vestia seu uniforme e ia para o Tribunal. Lá chegando, caía imediatamente na sua rotina de trabalho e preparava-se para lidar com petições, processos e as sessões públicas e administrativas. (...) Nos intervalos entre as sessões, fumava, bebia chá, conversava um pouco sobre política, um pouco sobre assuntos gerais, um pouco sobre jogo de cartas, mas, acima de tudo, sobre trabalho. (...) voltava para casa. Lá ficava sabendo que mãe e filha tinham feito e recebido visitas, o filho fora à escola, preparara suas lições com o tutor e estava dando duro para aprender o que ensinam nas escolas. Estava tudo sob controle”.

Na descrição dessa suposta normalidade é que Tolstói apresenta outra característica marcante da sua obra, a crítica à organização social russa, extensível ainda mais à época moderna, especialmente no que há de relações marcadas pelas aparências, uma “rede de falsidade” como ele imaginou. Isso fica evidente nos primeiros parágrafos da novela quando os colegas e amigos queridos de Ilitch recebem a notícia de sua morte e “a primeira coisa que lhes passou pela cabeça foi o possível efeito na rodada de transferências e promoções para eles ou seus companheiros” dada a vacância do cargo deixado pelo morto. Em segundo lugar, “lembravam que agora teriam de cumprir todos aqueles cansativos rituais que exigiam as normas de bom comportamento, assistindo ao funeral e fazendo uma visita de condolências à viúva”.

A partir do segundo capítulo o autor expõe ironicamente, no que assemelha-se muito ao brasileiro Machado de Assis, a falsidade por trás da ascensão de Ivan Ilitch, que assumiu um cargo público por indicação do pai, “um oficial cuja carreira em Petersburgo em vários ministérios e departamentos era daqueles que conduzem as pessoas a postos dos quais, em razão de seu longo tempo de serviço e da posição alcançada, não podem ser demitidas – embora seja óbvio que não possuem o menor talento para qualquer tarefa útil”. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência, mas apenas mais uma característica das grandes obras: a atemporalidade.

APARÊNCIAS
Na vida oficial do Tribunal de Justiça Ivan Ilitch adotou como princípio burocrático excluir “tudo o que contivesse vida dentro de si – o que sempre perturba o andamento normal das coisas oficiais.” Casou-se apenas porque “seu círculo social aprovava a escolha” e para se proteger da irritação e das exigências que o casamento trouxe com o tempo, transferiu o “centro de gravidade de sua existência da família para o trabalho”. Ao montar residência, empenhou-se em conseguir o “que normalmente é visto nas casas das pessoas que não são exatamente ricas, mas querem parecer ricas e o máximo que conseguem é parecer-se com todas as outras pessoas de sua classe”. E foi nesse esforço – ao tentar arrumar uma cortina tomou um tombo – que adquiriu o machucado que causaria sua doença fatal.

Nove dos doze capítulos descrevem o desenvolvimento do problema de saúde e do sofrimento e amargura de Ivan Ilitch, desde que notou, pela primeira vez a frieza burocrática em torno de si; dessa vez estando do lado contrário, como vítima ou réu indefeso na mão de um burocrata, como ele foi em toda sua vida profissional. Isso ficou claro para ele quando o médico consultado, numa postura superior, esmiúçou todos os detalhes técnicos da doença, mas se recusou a responder à única pergunta de interesse real, sobre a gravidade da doença. “Não era uma questão de Ivan Ilitch viver ou morrer, mas de decidir entre um rim flutuante ou apendicite”.

Aí surge também a ideia da morte como algo aterrorizante jamais pensado. “Não pode ser que todos os homens sejam sempre condenados a passar por esse horror”, exclama o protagonista envolvendo o leitor no rol desse drama universal. A partir daí as revelações se sucedem cada vez mais realistas. “E na opinião dos outros eu estava o tempo todo subindo e todo o tempo minha vida deslizava sob meus pés. E agora acabou tudo e é hora de morrer.” Na verdade, o único personagem realista em toda a novela é o criado Gerassim, camponês jovem e bondoso. É ele a única pessoa com quem Ivan Ilitch se sentia bem em sua agonia final, pois “era o único que não mentia, estava claro que só ele entendia a situação e não achava necessário disfarçá-la e simplesmente tinha pena do patrão doente à beira da morte”. Os demais fingiam que a doença era um infortúnio passageiro, um desconforto apenas que em breve passaria “e agiam assim em nome do mesmo decoro ao qual ele próprio subjugara-se a vida inteira”. Após o falecimento de seu patrão, Gerassim, já no primeiro capítulo, disse para os amigos do falecido: “É a vontade de Deus. Nós todos vamos passar por isso um dia”. Nada mais realista.

Enfim, além da hipocrisia social, é mesmo na solidão da consciência individual do personagem que a obra se revela plenamente. Só quando o sofrimento tornou-se quase insuportável, Ivan Ilitch ficou atento à voz de sua alma. “Veio-lhe à cabeça a ideia de que aquela sua leve inclinação para lutar contra os valores das classes altas, aqueles impulsos de rebeldia que mal se notavam e que ele havia tão bem aplacado talvez fossem a única coisa verdadeira, e o resto todo, falso.”

E é essa voz que fez a pergunta fundamental que valida, para cada leitor de todos os tempos, a universalidade e a grandeza da novela de Leon Tolstói: “Viver. Viver como?”

sábado, 5 de janeiro de 2013

CONFISSÃO DE COVARDIA OU DA FALTA DE CORAGEM


Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
Machado de Assis

Em muitas situações fui chamado de covarde por minha mulher. Covarde demais para tomar tal acusação como um insulto violento à minha honra, não protestei, mas também não admiti jamais essa “frouxidão da vontade”, como descreve Machado de Assis ao revelar a alma de seu maior personagem Brás Cubas. Dado a aventuras, a minha autoimagem posava de muito corajosa ante o enfrentamento de perigos e riscos de morte em peripécias várias por entre trilhas, montanhas, rios e florestas.

Esta autoimagem foi fulminada por um poema de um amigo que é mais que irmão, embora há muito separados pela distância. O verso de Edmilson Santana cravou-se em minha alma como uma claridade fulgurosa que afastou, mesmo temporariamente, as asas negras da ignorância e revelou um rasgão na eternidade em que tudo se mostra verdadeiro.

A "escultura" está "emoldurada"
com a madeira de um caixão
e exposta na galeria
da Capelinha do Hospital São Vicente...

A exposição descrita é um velório, a escultura em questão é o cadáver da artista plástica Girlene Malta, uma amiga meiga e querida que tive nos alvores da vida e perdi há muito, parte pelas circunstâncias da vida e parte pela falta de coragem de tomar uma iniciativa tão simples quanto um telefonema ou uma carta. Enfim, começa a se desvelar o anátema da covardia.

Quando voltei a ouvir, recentemente, algo sobre “Gir”, como a chamavam os mais íntimos, já não foram notícias tristes, mas uma laceração de agonia porque não veio apenas como a apresentação de um fato, mas também como a cobrança de uma atitude que exigia alguma coragem. Vamos clarear as coisas. Há poucos meses recebi uma ligação de outra pessoa tão querida quanto a nossa amiga comum de quem também me afastara pelos mesmos motivos condenáveis já confessos no parágrafo anterior. Cristina Leilane, poetisa das maiores, foi quem me informou do estado terminal de Girlene num hospital de Vitória da Conquista, na Bahia, aonde vivi nos alvores de remotos tempos. Foi a primeira fincada que alvoroçou um formigueiro de lembranças: pensamentos, atos e palavras – todos potencialmente expressões de nossos pecados – do que vivi e não vivi com Girlene, intensos ou fugazes. Era a dor do sujeito, considerando a perda de um ente amado apenas do seu próprio ponto de vista.

Mas aí veio o segundo golpe. Cris me contou que a moribunda lembrava-se de mim com alguma frequência e saudosa expressão. Uma citação do filósofo espanhol Jose Ortega y Gasset insinuou-se como uma vivificante luz de fundo. Ele dizia que só são realmente importantes as ideias dos náufragos. Ora, se eu era lembrado por aquela amiga, diante do naufrágio de sua barca física, só podia significar que, de algum modo eu fui importante para ela, mesmo tendo deixado nosso amizade esvanecer-se na imensidão do espaço que nos separou. Agora à minha dor inicial acrescentou-se uma segunda: a de não ter dado a Girlene a mesma importância que ela me deu, recordando de mim no seu leito de morte.

Por fim, Cristina Leilane, fiel até o último suspiro da amiga, sugeriu que eu fizesse uma ligação telefônica para Girlene. Disse-me que ouvir minha voz uma última vez poderia dar alguma sensação de alívio a alguém que estava sobrecarregada com todos os sofrimentos que costumam anteceder nossa partida desse mundo. Vejam a simplicidade do ato. E mesmo com vários números telefônicos e muitos aparelhos à disposição, além do incentivo de outras pessoas a quem comentei o fato, o que fiz? Ou melhor: não fiz.

E por que agi assim?

Por covardia de assumir diante dela que, por covardia, deixei que o tempo nos roubasse para sempre novos momentos de alegria como os que vivêramos em priscas eras e que agora já seriam impossíveis diante da fatalidade do câncer. Se não fosse para confessar a “frouxidão da vontade” e pedir perdão pela fraqueza, o que mais poderia dizer? Fingir que nada estava acontecendo, que era como se voltássemos aos alvores da vida? Não tive coragem para nenhuma das alternativas e dessa indecisão fui sacudido, enfim pelos versos iluminados de Edmilson Santana – como sempre um mestre em despertar emoções humanas profundas e revigorantes tanto quanto dolorosas às vezes – recebidos no ambiente sepulcral – sem vida - do email.

Por isso, agora, em homenagem póstuma à minha “prima”, irmã, amiga e amada Girlene Malta, eu confesso. Fui vítima da maldita covardia ou da falta de coragem de agir para conservar as amizades importantes, ainda que contra a avalanche cotidiana dos afazeres e, mais ainda, para levar no alforje do coração, sempre, um bálsamo que propicie alívio aos que nos amam e que, como é próprio do gênero humano, não poderão escapar totalmente à dor.

Foi isso o que não fiz e, como pecador confesso, arrependo-me batendo no peito três vezes: por minha culpa, minha tão grande culpa, minha máxima culpa.

Que isso não se repita pela Graça de Deus.