Em abril de 1991, como editor/redator da estreante revista
Raízes da Bahia, de curta duração e menor importância na história do jornalismo
de Vitória da Conquista, publiquei uma nota na seção de cultura, página 36,
intitulada Complô surrealista. O
texto era hiperbólico no estilo prolixo e descrevia vaga e superficialmente a
existência de uma artista plástica, Gislene Malta (assim mesmo: Gis... em vez
de Gir...) que além de já ter várias obras prontas – a nota era ilustrada por uma
tela, sem título, da artista – estava se preparando para realizar um filme em
desenho animado, em que seria roteirista, produtora e ilustradora. As velhas palavras do velho texto nada revelavam do que é a artista e de quem é Girlene Malta, o nome real da minha atual amiga.
Da artista muito se poderia ter dito admirando a obra publicada. No terço inferior da tela há um homem que representa o papel social do sujeito – vestido com roupas sociais, com maleta de trabalho e cabeça em forma de esfera radiante – visto de um ponto de vista superior, de pé sobre um círculo composto por vários outros círculos concêntricos, criando uma sensação de espiral. Este círculo está rodeado por esferas flutuantes, provavelmente simbolizando mundos ou dimensões paralelas. A cabeça do homem toca uma dessas esferas que penetra o interior de um quadrado na região central, que parece ser uma sala ou túnel sem fim. Ali dentro, o homem se reapresenta mas, agora, com uma mão estendida para o alto, tocando os dedos descarnados de uma figura cadavérica, que só pode ser a morte. Essa figura esquelética, no terço superior da tela, se apresenta saindo do quadrado e penetrando no universo das esferas flutuantes.
Tecnicamente, a composição da obra continha algumas características do arquiteto e gravurista holandês Mauritus Cornelis Escher, especialmente o de externar na tela, certas percepções de relativismo direcional, como as famosas escadas que são utilizadas pelos lados de cima e de baixo simultaneamente.
No campo simbólico e psicológico, sem ser entendedor de psicanálise, atrevo-me a arriscar que a tela de Girlene Malta era uma obra genuína no sentido de ser uma representação sincera de um estado de alma. Ali mostrava-se óbvia a experiência de um ser humano que se sentia angustiadamente preso ao seu papel social e às convenções culturais ao ponto de se sentir tão ou mais ameaçado por essa teia de ideias e conceitos do que pela própria natureza física e seus fenômenos. E nesse cenário simbólico – poderia dizer surrealista, mas já não tenho certeza disso – a única saída era por meio da alva figura cadavérica da morte.
Todos nós, em maior ou menor grau, já passamos por experiências análogas e sabemos o quanto são profundas. E a impressão de profundidade é a que mais guardo da minha amada amiga daqueles idos de 91, quando convivemos intensamente e, de minha parte, tanto quanto inconscientemente. Foram momentos de grandes possibilidades, como se vê pelo projeto do desenho animado, que, se bem me lembro nunca chegou a ser realizado, lamentavelmente. Eu próprio tinha, em sonhos, vôos muito mais altos e também jamais conquistados.
Acho que essa é uma sensação vantajosa dada pela velhice: uma maior capacidade de entender as maravilhas do espírito humano, seja em suas grandes realizações ou na simplicidade de uma vida comum que simplesmente brotou e floriu. Só por isso tal vida já é um milagre, o milagre da sobrevivência num canteiro de incertezas, sujeita a todas as pragas e intempéries da existência.
Girlene Malta é um desses milagres e o que mais
me alegra é saber que tudo o que aconteceu, aconteceu para sempre, porque não
pode mais ser desfeito ou “desacontecido”, como se diz poeticamente. Então em
algum cantinho da Eternidade eu continuo convivendo com minha amiga, flutuando numa
imensidão de esferas de possibilidades, como aquelas que formavam o fundo de
sua tela distante, evanescente, pálida no papel sépia de uma velha revista
esquecida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário